quinta-feira, 2 de julho de 2020

HERÓI

Anna Maria Maiolino (Itália, 1942) é uma das artistas brasileiras de maior reconhecimento internacional. Migrou para o Rio de Janeiro em 1960, depois de iniciar seus estudos artísticos na Venezuela. No Rio, participou do movimento chamado Nova Figuração, distanciando-se das formas tradicionais da arte, como a pintura de cavalete. Tais mudanças de linguagem implicaram um engajamento político dos artistas, na medida em que o caráter coletivo dos trabalhos incorporava temas de interesse público, refletindo os fortes conflitos sociais e políticos da época. ‘O herói’ pode ser interpretado como uma denúncia do autoritarismo no Brasil sob o comando dos militares na época. A caveira é uma alusão à morte, alegoria da violência militar do período. Embora entende-se que 1968 tenha inaugurado o período mais duro da ditadura militar, com a perseguição política sistematizada pelo decreto AI- 5, desde 1964 empregaram-se métodos de controle, intimidação, tortura e extermínio. Assim, a obra de Maiolino, de 1966, antecipava a crítica às violações dos direitos humanos da ditadura brasileira. O termo ‘herói’ é uma ironia; questiona o caráter dessa figura, que se orgulha de suas medalhas e está a serviço do poder. Esta é a segunda versão da obra, com as medalhas originais, pois a primeira foi destruída. Fonte: MASP, 2020

Fonte: Acervo MASP - Anna Maria Maiolino, O herói, 1966, doação da artista.

domingo, 28 de junho de 2020

LUCY CITTI FERREIRA

Lucy Citti Ferreira (1911-2008) nasceu em São Paulo mas viveu a infância e a juventude na França. Em 1930 ingressou no curso noturno de desenhos de modelos clássicos da Escola Regional de Belas Artes em Havre, na França. Entre 1932 e 1934 estudou na Escola Nacional de Belas Artes, em Paris. Expôs no Grand Palais e no Salon des TuileriesNo ano seguinte, em 1935, retornou a São Paulo, em plena efervescência modernista Mário de Andrade apresentou a pintora aao artista judeu e lituano Lasar Segall. Foi sua aluna, assistente e modelo até seu retorno à Paris em 1947, integrando grupos artísticos. 

O reconhecimento de seu trabalho veio por meio da menção honrosa no Salão Paulista de Belas Artes, em 1935, de sua participação no 2º Salão de Maio, em 1938, e de sua primeira mostra individual, realizada no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), em São Paulo, e na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, em 1938. 

Apesar de ter deixado uma prolífica produção, a circulação de seu trabalho foi limitada pela crítica da época que a via apenas como ‘seguidora de Segall’- como se não existisse a possibilidade de uma colaboração horizontal e influência mútua entre os dois artistas (MASP, 2020)

Entre os temas que pintou durante sua permanência no Brasil estão a maternidade, retratos e autorretratos, a guerra e as tensões sociais da época (1935 - 1947). Retratou amigos e a si mesma em diversas obras, com o uso de um espelho. A imagem que vemos em ‘Autorretrato’ (1937) é possivelmente o ponto de vista desse espelho, que testemunha o início de uma nova tela. Os olhos expressivos da artista atraem o observador como se o conduzisse para dentro da personagem. As mãos da pintora também recebem especial atenção: em primeiro plano, portam seu instrumento de trabalho, um fino pincel e um godê – a artista é a modelo e a protagonista de sua obra (MASP, 2020).

Autorretrato, Lucy Citti Ferreira, 1937,  óleo sobre tela, acervo MASP.



domingo, 14 de junho de 2020

EQUILÍBRIO


O equilíbrio é a combinação das formas na composição trazendo sensação de estabilidade das forças. A posição das formas, sua inclinação, a presença da simetria ou assimetria, a compensação das forças e pesos interferem  na percepção de equilíbrio da obra de arte. 
Quando há ausência de equilíbrio as formas sugerem tensão e desestabilidade, queda ou fuga. Segundo Arnheim (2012), para o olho sensível o equilíbrio dos pontos (eixos / forças) é animado de tensão. Há o equilíbrio físico e o equilíbrio visual. Fatores como tamanho, cor ou direção contribuem para o equilíbrio visual de maneiras não necessariamente às condições físicas. Numa composição equilibrada, todos os fatores como configuração, direção e localização determinam-se mutuamente de tal modo que nenhuma alteração parece possível. Uma composição desequilibrada parece acidental, transitória, e, portanto, inválida. Seus elementos apresentam uma tendência para mudar de lugar ou forma a fim de conseguir um estado melhor. 
Nas esculturas abaixo, os artistas exploram a questão do equilíbrio físico e visual de modo bastante interessante, criando situações de tensão, leveza, harmonia, repulsão. 


Fredrik Raddum, Transferência , 2017, bronze, Noruega

Emil Alzamora, Albedo, 2014, bronze, EUA 

Bruno Catalano, Viajante, 2013, bronze, França

Jerzy Kedziora, Homem atravessando o rio, 2004, bronze, Polônia



ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. 10. ed. São Paulo, SP: Cengage Learning, 2012.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

UM GOLDEN RETRIEVER NO MUSEU

A pintura Um Golden Retriever no Museu (2013) do artista norte americano Tom Mosser foi leiloada por US$ 8100 doados para o Banco de Alimentos de Pittsburgh. A pintura representa o cachorro do artista, Lucas, olhando a pintura de uma bola de tênis. Segundo o artista, a obra é um presente para todos os donos de cães. A pintura teve uma grande repercussão e pessoas do mundo inteiro mandaram mensagens de agradecimento ao artista. Cópias da obra e reproduções em  camisetas também estão sendo feitas para arrecadar fundos assistenciais. 

Fonte: Tom Mosser. Disponível em: https://www.facebook.com/agoldenretrieveratthemuseum/ 

A Golden Retrivier at museum, óleo sobre tela, 2013.

Lucas e Tom Mosser

Lucas e Tom Mosser na campanha para arrecadação de fundos.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

HISTÓRIA E FOTOJORNALISMO

O fotógrafo Evandro Teixeira (1935), reconhecido como um dos maiores nomes do fotojornalismo brasileiro, registrou por meio de suas lentes, grandes acontecimentos do país e do mundo nas últimas décadas. Em 1962, ele foi convidado para trabalhar no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, um dos mais relevantes jornais da época. Entre suas milhares de imagens, destacam-se os registros que fez da Passeata dos Cem Mil, em 1968, no Rio de Janeiro. A manifestação histórica, que ocorreu no dia 26 de junho de 1968, foi organizada pelo movimento estudantil, e contou com a participação de artistas, intelectuais e representantes de diversos setores da sociedade brasileira. Os participantes percorreram as ruas do centro do Rio de Janeiro e pararam para ouvir o discurso do líder estudantil Vladimir Palmeira, que foi preso dias depois. A passeata é considerada um dos maiores protestos da sociedade civil da América Latina. Em uma das fotos, Evandro Teixeira exibe a massa de participantes e uma enorme faixa com os dizeres “Abaixo a Ditadura. Povo no Poder”. A foto foi motivo de uma pesquisa e publicação do fotógrafo, lançada em 2008, intitulada 68 destinos que reúne entrevistas de 100 pessoas identificadas na imagem. Assim como outras produções artísticas e culturais, as imagens produzidas pelo fotojornalismo são fontes historiográficas que devem ser exploradas no estudo da história contemporânea, trazendo importantes camadas de discussão que outras fontes históricas não são capazes de proporcionar.  

Passeata dos Cem Mil, Evandro Teixeira, 26 de junho de 1968.



domingo, 10 de maio de 2020

A ATUALIDADE DE DONA FLOR

Em tempos de ânimos acirrados, de manifestações calorosas e discursos agressivos, cabe lembrar o romance Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado (1976). O texto de Amado expressa essa dubiedade da identidade social brasileira. Refletindo sobre, o sociólogo, crítico literário e professor Antônio Cândido de Mello e Souza (1918-2017) afirma: 

“Um dos maiores esforços das sociedades, através da sua organização e das ideologias que a justificam, é estabelecer a existência objetiva e o valor real dos pares antitéticos, entre os quais é preciso escolher, e que significam lícito e ilícito, verdadeiro ou falso, moral ou imoral, justo ou injusto, esquerda e direita política, e assim por diante. Quanto mais rígida a sociedade, mais definido cada termo e mais apertada a opção. E uma das grandes funções da literatura satírica, do realismo desmistificador e da análise psicológica é o fato de mostrarem, cada um ao seu modo, que os referidos pares são reversíveis, não estanques, e que fora da racionalização ideológica as antinomias convivem num curioso lusco-fusco”. CÂNDIDO, Antônio. O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 47.