terça-feira, 31 de outubro de 2017

CORDEIRO DE DEUS

As obras do artista brasileiro Alex Flemming (1954) são carregadas de sofrimento, sacrifício e morte, que chocam e confrontam o expectador.  A mistura de elementos contraditórios e enigmáticos captura o olhar.  Animais pintados unidos com objetos cotidianos de uma casa, provocam nossos sentimentos, pois nesse encontro temos a vida e a morte. Os corpos dos animais são golpeados por esses instrumentos que usamos no nosso dia a dia para edificar, medir, construir, alimentar, causando um jogo de ambiguidade, que não nos deixa insensíveis. 

Na obra Cordeiro de Deus temos um cordeiro empalhado pintado em azul, ferido por dez escumadeiras de metal. O objeto artístico remete a Jesus Cristo, que na Bíblia é identificado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1: 29). Essa figura de linguagem revela o papel vicário de Cristo, que morreu pelos pecados da humanidade, assim como no passado os cordeiros eram oferecidos em sacrifício pelos pecados dos homens. A cor azul do animal lembra o manto com que Jesus é frequentemente representado na iconografia. O fato de que na poética do artista Cristo é ferido por objetos comuns e habituais, pode nos lembrar de que diariamente ofendemos a Deus com nossas atitudes egoístas e indiferentes. 

Cordeiro de Deus, Alex Flemming, 1991. Técnica: Acrílica sobre anima empalhado, objeto de metal, MAC USP. Foto: Janaina Xavier, 2016.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CRUCIFIXÃO, REGO MONTEIRO

Crucifixão, Vicente do Rego Monteiro, 1924, óleo sobre tela, 88,5x77,7 cm, Museu Oscar Niemeyer. Foto: Jana Xavier 
A obra “Crucifixão”, do artista brasileiro Vicente do Rego Monteiro (Recife, 1899-1970) retrata a morte de Cristo. A pintura tem forte influência do cubismo com a geometrização das formas e volumes, mas com referências à cerâmica indígena marajoara, predominando os tons terrosos. Cristo está em posição centralizada na tela, voltado de frente para o observador, seu corpo tem a forma da cruz. A coroa de espinhos faz a cabeça de Cristo sangrar, os ferimentos em seu peito, mãos e pés também sangram, os cravos são evidenciados pela cor mais escura. Nos lados de Cristo duas mulheres choram com as mãos postas em oração, apoiadas sobre a cruz. Uma delas está com os olhos abertos e a outra os mantém fechados. A obra expressa tristeza e pesar e inspira o observador a reflexão sobre o sentido do sacrifício de Jesus pela humanidade.    

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CRISTO DO GUIGNARD


A expressão e o olhar do Cristo do pintor mineiro Guignard é extremamente tocante e profunda. O rosto alongado e a coroa de espinhos acentuam a punção da obra. As cores quentes e fortes ressaltam a paixão de Jesus. Expressão pura. Simplesmente fantástico! 

Cristo ao Fundo de Paisagem Mineira, Alberto da Veiga Guignard, óleo sobre madeira, 40,5 x 32,5 cm, 1961.

A MULHER ADÚLTERA

Cristo e a mulher adúltera, Rodolfo Bernardelli, 1884, mármore, 2,02 m, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. Foto: Jana Xavier
O artista conseguiu captar plenamente a essência do momento: "Eu também não te condeno" João 8:11. Jesus não apenas não condenou, mas acolheu a mulher.




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

PRESSÁGIO


 O AMOR, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar p'ra ela,
 Mas não lhe sabe falar.

 Quem quer dizer o que sente
 Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente...
 Cala: parece esquecer...

 Ah, mas se ela adivinhasse,
 Se pudesse ouvir o olhar, 
 E se um olhar lhe bastasse
 P'ra saber que a estão a amar!

 Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
 Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!

 Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
 Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa

domingo, 14 de maio de 2017

CASA DA IPIRANGA EM PETROPÓLIS

A casa da Rua Ipiranga, em Petrópolis, de propriedade do economista José Tavares Guerra (1861-1907), foi construída em 1884 pelo engenheiro alemão Karl Spangenberger. A casa é em estilo rainha Vitória (1819-1901), da Inglaterra, com salões de festas com lustres franceses, espelhos de cristal, lareiras de mármore de Carrara e cerca de 200 pinturas murais. O jardim preserva o traçado original criado pelo botânico e paisagista francês Auguste Glaziou, que realizou os jardins da Quinta da Boa Vista e do Passeio Público, no Rio de Janeiro, para o Império Brasileiro. Nas obras foi utilizada mão-de-obra de imigrantes alemães em lugar da escrava. Foi a primeira residência em Petrópolis a empregar luz elétrica em 1896.

Fachada Principal. Foto: Janaina Xavier.

Salão com lareira e lustre francês da mesma fundição que fez os do Palácio de Versalhes, na França.
Foto: Janaina Xavier.

Pintura de anjos no teto. Foto: Janaina Xavier.

Pintura mural de um anjo tocando harpa. Foto: Janaina Xavier.

Vista do jardim. Foto: Janaina Xavier.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade