quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ASSÉDIO

Por Jana Xavier

Há alguns dias pensei em escrever sobre o assédio que nós mulheres frequentemente somos vítimas, mas desanimei diante do sentimento de inutilidade da iniciativa. Porém hoje, ao ouvir o desabafo da moça do caixa do supermercado, me solidarizei com ela e, por uma questão de sororidade, decidi expressar nossos sentimentos comuns. A verdade absoluta é que nenhuma mulher em nossa sociedade consegue alcançar seus 15 anos sem passar por esse constrangimento e, infelizmente, muitas, bem antes disso, já se depararam com essa situação desagradável. 

Tive avó, mãe e tias, tenho cunhadas, sobrinhas, professoras, alunas e amigas e falo em nome de todas elas, pois independentemente de idade, características físicas, formas de se vestir ou se comportar, teremos que ouvir gracejos, receber olhares, presenciar gestos e até toques inconvenientes, nos lugares e nos momentos mais impróprios e inesperados. 
Não é possível apontar um tipo de homem que age dessa forma, pois encontramos essa conduta em todas as classes sociais. Particularmente, já ouvi “cantadas” de pedreiros, mecânicos, mendigos, colegas de trabalho, anônimos, mas também de médicos, professores, pastores e até alunos.

O inoportuno não poupa suas primas, pacientes, clientes, alunas, colegas de trabalho, vizinhas e, especialmente, as desconhecidas que encontra nos ônibus, nas ruas e no comércio são seu objeto principal de ofensiva, sob a confiança da impunidade. Nem mesmo a hierarquia reprime o indiscreto, prova disso está no fato de que somos atacadas por chefes e subordinados. Também temos que conviver com esse aborrecimento em todos os lugares: em casa, no trabalho, na escola, no consultório, na igreja, no transporte, nas praças, enfim, não estamos livres em lugar algum.  

Mais bizarro do que isso são os preconceitos e os distúrbios sociais derivados dessa atitude masculina e que todas testemunham e aprendem ao longo da vida: ser culpabilizada pela ofensa recebida; sentir-se receosa ao entrar em ambientes onde há homens sozinhos ou em grupo; ter que adotar uma postura fechada ou deselegante; controlar o vestuário, as palavras, expressões e comportamentos naturais para não ser “mal interpretada”; fazer-se de “desentendida” para evitar maiores transtornos; indignar-se e perceber que não há o que fazer; e mentir ou ocultar de pais, maridos e colegas o abuso sofrido. Ou seja, nos acostumarmos a “engolir” essas situações como se fossem “normais”. 

Não pensem que não sabemos distinguir um elogio de uma cantada. Todas gostamos de ouvir palavras agradáveis e gentis, que nos elevam, nos encorajam, nos valorizam, nos edificam, enquanto as gracinhas impertinentes nos diminuem, nos ofendem, nos desanimam e nos objetificam.   
   
Se você é mulher me entenderá plenamente, se é homem e respeita as mulheres da sua vida, porque felizmente esse mal não acomete a todos, talvez se sinta surpreso e incomodado. Não tenho a pretensão de que essa minha confissão faça algum abusador refletir e mudar seu perfil, sou incrédula demais para isso, mas quem sabe num futuro distante, se nos unirmos nesse propósito e se a humanidade ainda estiver nesse mundo, as mulheres possam ser mais valorizadas, respeitadas e protegidas. 
Por enquanto, por questão de solidariedade e empatia levarei este texto à moça do supermercado, pois talvez assim ela sinta que suas queixas foram ouvidas por alguém que a entendeu completamente. 



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A MORTE NAS OBRAS DE CHRISTIAN BOLTANSKI

O artista francês Christian Boltanski trabalha com a temática da memória e da morte em suas obras, numa tentativa frustrada de preservar a vida. “Eu tento tanto preservar a vida, mas a verdade é que sempre falhei”, confessa o artista. Para a exposição "Invento: As Revoluções que nos Inventaram", realizada em 2015, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, Boltanski criou uma instalação site-specific intitulada "Crepúsculo" composta de 480 lâmpadas incandescentes. A cada hora uma delas se apagava definitivamente até todas se extinguirem marcando o encerramento da mostra. A instalação não apenas discutiu o fim da lâmpada incandescente, mas levou a reflexão sobre a finitude de todas as coisas.

Crepúsculo, Christian Boltanski, instalação para a exposição "Invento: As Revoluções que nos Inventaram", 2015, Parque do Ibirapuera SP. Fonte: https://vejasp.abril.com.br/atracao/invento/ 



sábado, 27 de janeiro de 2018

SENHOR DOS MARTÍRIOS

Escultura do Senhor dos Martírios, madeira policromada, tamanho natural, artista desconhecido, Igreja de São Domingos de Gusmão (1723), Salvador BA, tombamento IPHAN 0257, em 13/08/85. Foto: Jana Xavier.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

PERFORMANCE DE MARINA ABRAMOVIC: The House with the Ocean

De 15 a 26 de novembro de 2002, em uma de suas performances artísticas intitulada The House with the Ocean View (A Casa com Vista para o Oceano), a artista sérvia Marina Abramovic (1946), passou doze dias, sem comida e em silêncio em três cômodos suspensos na Galeria Sean Kelly, em Nova York, de frente para rua e separada do público por escadas, cujo os degraus eram facas afiadas (objeto que Marina concebeu e entitulou “faca de dois gumes”). Ela dedicou essa experiência a cidade de Nova York após os atentados terroristas ocorridos em 11 de setembro de 2011. A artista considera essa performance como a maior de sua carreira e o público permaneceu por horas acompanhando sua ação.

Vejam as fotos e a entrevista em vídeo da artista que documentaram a performance:


The House with the Ocean View, 2002, Galeria Sean Kelly, Nova York. Fonte: http://www.skny.com/


The House with the Ocean View, 2002, Galeria Sean Kelly, Nova York. Fonte: http://www.skny.com/



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

JAZZ DE HENRI MATISSE

Jazz é um álbum do artista francês Henri Matisse (1869-1954). Em suas vinte páginas, Matisse trabalhou com o recorte livre de formas coloridas, alegres, abstratas e orgânicas que remetem a cenas do circo, da natureza e do mar. A obra, que começou a ser realizada em 1944, só se encerrou em 1946, com a impressão de 250 cópias do catálogo.

Nessa proposta, os alunos do Curso de Pedagogia do UNASP EC, na disciplina de Arte Educação, experimentaram a técnica de Matisse, produzindo composições a partir da observação e releitura de Jazz. A intenção do trabalho é levar essa atividade para os alunos em sala de aula. Cores vivas, curvas, emoção, movimento e ritmo é a essência de Jazz e isso vai contagiar as crianças.


Composições dos alunos do Curso de Pedagogia do UNASP EC. Foto: Jana Xavier, 2017.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

CORDEIRO DE DEUS

As obras do artista brasileiro Alex Flemming (1954) são carregadas de sofrimento, sacrifício e morte, que chocam e confrontam o expectador.  A mistura de elementos contraditórios e enigmáticos captura o olhar.  Animais pintados unidos com objetos cotidianos de uma casa, provocam nossos sentimentos, pois nesse encontro temos a vida e a morte. Os corpos dos animais são golpeados por esses instrumentos que usamos no nosso dia a dia para edificar, medir, construir, alimentar, causando um jogo de ambiguidade, que não nos deixa insensíveis. 

Na obra Cordeiro de Deus temos um cordeiro empalhado pintado em azul, ferido por dez escumadeiras de metal. O objeto artístico remete a Jesus Cristo, que na Bíblia é identificado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1: 29). Essa figura de linguagem revela o papel vicário de Cristo, que morreu pelos pecados da humanidade, assim como no passado os cordeiros eram oferecidos em sacrifício pelos pecados dos homens. A cor azul do animal lembra o manto com que Jesus é frequentemente representado na iconografia. O fato de que na poética do artista Cristo é ferido por objetos comuns e habituais, pode nos lembrar de que diariamente ofendemos a Deus com nossas atitudes egoístas e indiferentes. 

Cordeiro de Deus, Alex Flemming, 1991. Técnica: Acrílica sobre anima empalhado, objeto de metal, MAC USP. Foto: Janaina Xavier, 2016.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CRUCIFIXÃO, REGO MONTEIRO

Crucifixão, Vicente do Rego Monteiro, 1924, óleo sobre tela, 88,5x77,7 cm, Museu Oscar Niemeyer. Foto: Jana Xavier 
A obra “Crucifixão”, do artista brasileiro Vicente do Rego Monteiro (Recife, 1899-1970) retrata a morte de Cristo. A pintura tem forte influência do cubismo com a geometrização das formas e volumes, mas com referências à cerâmica indígena marajoara, predominando os tons terrosos. Cristo está em posição centralizada na tela, voltado de frente para o observador, seu corpo tem a forma da cruz. A coroa de espinhos faz a cabeça de Cristo sangrar, os ferimentos em seu peito, mãos e pés também sangram, os cravos são evidenciados pela cor mais escura. Nos lados de Cristo duas mulheres choram com as mãos postas em oração, apoiadas sobre a cruz. Uma delas está com os olhos abertos e a outra os mantém fechados. A obra expressa tristeza e pesar e inspira o observador a reflexão sobre o sentido do sacrifício de Jesus pela humanidade.